Cientistas alcançam o Lago Vostok, isolado a 4 000 metros de profundidade, um exemplo das enormes reservas de água doce abaixo da superfície da Terra
Depois de duas décadas
perfurando o solo numa das regiões mais frias e inóspitas do planeta, na
Antártica, um grupo de cientistas russos conseguiu, no sábado 4, chegar às águas
do Lago Vostok, um enorme bolsão subterrâneo de água doce preservado há 15
milhões de anos por uma camada de 4 quilômetros de gelo. Se comparado aos lagos
de superfície do planeta, o Vostok ocupa o sétimo lugar em volume de água. O
interesse científico em esmiuçar suas características é enorme. Desde que sua
existência foi detectada, na década de 70, os cientistas especulam que ele pode
abrigar formas primitivas de vida, que sobreviveram a condições extremamente
hostis, sem luz nem nutrientes, com temperatura e pressão extremas.
Mais
do que isso: havendo algum tipo de vida na água do Vostok, aumenta a
probabilidade de encontrar organismos semelhantes no espaço. Pesquisas recentes
provam que em duas luas de Júpiter, Calisto e Europa, existem camadas de gelo
similares àquelas que cobrem a Antártica. Debaixo delas, pos-sivelmente, há
lagos intocados como o Vostok, que podem abrigar vida. No próximo verão do Polo
Sul, em dezembro, os cientistas vão retirar amostras da água do Vostok, por meio
do buraco aberto até sua superfície, e os resultados das análises devem ser
divulgados em meados de 2013. O passo seguinte, daqui a dois anos, será enviar
uma sonda-robô para dentro do lago, com a missão de coletar mais amostras de
água e dos sedimentos que se encontram no fundo do Vostok.
O feito
espetacular dos pesquisadores russos é proporcional às dificuldades que eles
encontraram ao longo do projeto. Na região acima do Vostok, registrou-se em 1983
a menor temperatura da história recente do planeta: 89 graus negativos. Os
cientistas só puderam trabalhar durante os breves verões antárticos, quando as
temperaturas são relativamente amenas, na casa de 40 graus negativos. Além
disso, há catorze anos os trabalhos foram interrompidos por uma delicada questão
técnica. Para evitar que a broca que realizava a perfuração congelasse, a equipe
injetava no buraco, à medida que era escavado, uma mistura de querosene com
freon, um composto que não se mistura com a água.
Os cientistas temiam
que, ao atingir o Vostok, esse líquido vazasse para dentro do lago,
contaminando-o. Para evitar esse desastre, foi instalado um sensor de pressão
que interromperia a escavação assim que se detectasse o limite do lago. A
expectativa dos cientistas se confirmou na última semana. Quando se atingiu o
Vostok, a enorme pressão a que o lago está exposto fez com que um jato de sua
água subisse pelo buraco escavado. Essa água, submetida a uma pressão menor,
congelou-se e vedou o buraco.
O Lago Vostok é uma ilustração perfeita
das riquezas hídricas que se ocultam sob a superfície do planeta. De toda a água
doce disponível na Terra, apenas 1% está a céu aberto, em forma líquida ou
gasosa. Setenta por cento estão depositados em forma de gelo nas geleiras e
calotas polares. Os 29% que restam estão justamente debaixo da terra,
depositados principalmente nos aquíferos, que abrigam 100 vezes mais água que os
rios e lagos do globo. Os aquíferos são enormes camadas subterrâneas de rochas
permeáveis. Por bilhões de anos, cada uma dessas formações geológicas espalhadas
pela Terra agiu como uma esponja, retendo a água filtrada da superfície e
acumulando-a ao longo de sua extensão. A água corre entre os poros das rochas.
Estimativas recentes dizem que os aquíferos são responsáveis por 1 de
cada 3 litros da água utilizada para consumo humano e na agricultura. Eles
mantêm o nível de muitos rios nas épocas de seca e absorvem a água excedente em
períodos de chuva. No norte da África, a porção do continente mais pobre em
recursos hídricos, os aquíferos garantem a água que aflora nos oásis do Deserto
do Saara. "Os aquíferos são importantes, embora não sejam a salvação do planeta,
porque é preciso preservar as fontes de água superficiais", analisa o geólogo
Didier Gastmans, do Centro de Estudos Ambientais da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), em Rio Claro.
Fonte:http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/ciencia-lago-vostok-exemplo-reserva-agua-abaixo-terra-677282.shtml
